Saturday, September 21, 2013
Agora que é Outono, é tempo de regar as rosas
Há uma liberdade poética que reconforta quando as palavras são lágrimas.
Hoje, noite maravilhosa, quente, estrelada, noite de força de equinócio, noite em que respiramos, ávidos, o último sopro quente do Verão, noite em que acreditamos, esperançosos, noite de abraço fraterno, noite de amantes felizes, noite de festa em fim de festa, última noite do último Verão das nossas vidas.
Há uma liberdade poética, quase uma música alegre que nos faz tristes, como um Gracias à la vida de Mercedes Sosa.
Há uma fina elegância em escolher a noite mais bonita do ano para partires, Maria da Piedade António Afonso, avó, meu colo de menino, que graças a ti nunca se esqueceu de ser rapaz, em homem.
Um homem que tem um colo de avó para deitar os cabelos brancos será sempre um menino. E que falta fazem ao mundo homens-meninos em vez de homenzarrões, homenzinhos de merda ou outros bovinos.
Hoje partiste com o brilho da estrela que primeiro desponta no equinócio, Vénus, do amor.
E todo o amor coubesse naquela estrela, seria o meu amor por ti, avó, grande amor dos amores da minha vida. Hoje caíu o outono sobre o Verão da minha vida e sentado aqui no terreiro do Escaldado, olhando as cadeiras vazias de ti e do avô Manel, sinto que lá do cimo, da Serra da Gardunha, se aproxima um vento frio de outono que varre o terreiro das folhas caídas, como tu o fazias com a velha vassoura descabelada e incompetente que ainda ali jaz, adormecida sob a latada das uvas que já ninguém colhe, e as silvas, que pressentindo o abandono, natureza que sabe, vão abraçando a tua casa de cal cinzenta.
Lembras-te como eu gostava dessas uvas, avó, e como tu as guardavas com zelo para mim. E as comíamos com pão, enquanto o avô regava pela tardinha de setembro? Sentado aqui no Escaldado, quinta de musgo no sopé do presépio de Castelo Novo e da sombria, circunspecta, mas resguardante e protectora Serra da Gardunha, sentado aqui, sinto que as lágrimas se secam numa ribeira de amor antigo, filial, que corre desde as pedras fecundas da serra, para se estender como um ribeiro de memórias boas.
De dias felizes, tantos, e tantos. Só queria, avó, que a ribeira me levasse até à Atalaia, para ir, pela calada da noite, roubar as laranjas e o coração das palavras do Eugénio de Andrade:
"É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente."
Oh avó, como eu queria agora ser poeta e ter essa urgência, para te dizer todo o meu amor, para dizer ao mundo todo o meu amor por ti, que como parte interessada não se resume ao amor filial de um neto pela sua avó.
Como eu queria ser esse barco no mar de que falava o José Fontinhas da Atalaia (nome de Eugénio), um barco com palavras de admiração desfraldadas nas velas enfunadas por essa campina afora, dizendo ao mundo que quem morreu não era simplesmente a minha avó, nem uma anónima velhota de Castelo Novo.
Como queria que as lágrimas que me escorrem pelas palavras se transformassem em laranjas doces que pudesse partilhar com um mundo de esfaimados de emoções ou empanturrado de emoções instantâneas como a mousse alsa.
Que asfixia, que estômago feito em nó, que palavras se me sufocam para dizer que hoje, quem morreu, não foi a minha avó, não foi a Ti Piedade de Castelo Novo.
Quem morreu hoje, foi um tempo, uma força viva da natureza. Quem morreu foi a solidez do granito e a brandura de uma seara que dança ao vento.
Quando morre a nossa avó, morre um pouco de todas as nossas avós e do nosso tempo. A vida é morrer aos bocadinhos e passar a vida a enganar a morte, essa injustiça anunciada.
Em breve, netos sem avós, revisitaremos os lugares onde fomos felizes como uma certa viagem de despedida, como eu sempre fazia contigo e com a tua irmã e minha avó do lado, a Titi.
Lembras-te como íamos os três de jipe, correr os caminhos da Serra, à Quinta do Ordaz onde vocês foram uma vez meninas, a trabalhar para os senhores da terra.
E lembras-te, avó, de pararmos, numa barricada de ovelhas, e comermos gelados que se derretiam nas mãos. Quantas viagens de despedida, como Eugénio, fizemos.
E quantas mais fazíamos, menos eu pensava que fosse a última.
Como eu queria subir amanhã ao Cabeço da Penha e gritar que a velha que vai hoje a enterrar ali no cemitério à sombra da Gardunha, não é só a minha avó.
É a mulher-fortaleza de amor de um tempo.
Analfabeta que se baldava à escola para ir jogar com as amigas, mulher que sem saber ler nem escrever, era dotada da mais espantosa inteligência emocional que já alguma vez conheci.
Uma diplomata de equilíbrios e de subtilezas dignas de um Richelieu, sem a malícia de um Richelieu. Admirável, como ao longo de uma vida, foi capaz de gerir desiquilibrios e turbulência e manter telhado de amor, de fraternidade e de submissão ao seu magistério de amor.
E como uma vida de agruras, de privações, de pão com azeitonas, desde as noites de frio na gare da Guarda, como mulher de um ferroviário pobretanas, foi capaz de urdir um palácio onde todos somos príncipes-plebeus.
De como vendia galinhas e ovos para comprar tecidos para a Titi esculpir belos vestidos para a minha mãe ser chamada de "modelo" pelos colegas burgueses da escola; de como abria de mansinho e de sorriso cúmplice a porta à noite quando a minha mãe e as minhas tias regressavam dos bailes a desoras para o meu avô não rezingar.
A família dos pobretes e alegretes, porque a alegria é toda a aristocracia, que a aristocracia nunca conseguirá comprar ou brasonar.
Maria da Piedade António Afonso, a matriarca, a grande senhora dos pés descalços, que merecerá apenas um obituário a pagantes no JF e umas palavrinhas prêt-a-porter do pároco de serviço, é muito mais do que a minha avó, é a avó da Beira Baixa, é a avó de Portugal, que morre esquecida nos lares-depósito, nas visitinhas forçadas e tristes, no país que se afunda, não na crise e nos bolsos vazios, mas num coração apressado de pedra.
Um país de espectros andantes e opinantes que não para de raiva e de culpa quando lê isto que Fernando Paulouro escreveu e disse ontem na apresentação do seu livro, A história de Maria das Cabras que me fez lembrar a Ti Antónia Lua de Castelo Novo, a quem a minha avó dava um bocado do seu coração generoso e grande, que me faz sentir tão pequeno e indigno da sua herança solidária.
"UMA VIDA DESFEITA...
Vestida de preto, com o cheiro de séculos de servidão agarrado ao corpo, balbuciando sons de difícil entendimento ou irrompendo contra a troça da garotada, era uma mulher exposta em toda a crueza da desigualdade. Uma mulher acossada pelo tempo e pelas circunstâncias, apanhada no turbilhão da fatalidade que a uns há-de dar tudo, e a outros nada. Habitou tugúrios com os bichos, com eles dormiu e se aqueceu nas noites longas de inverno, quando o frio assaltava as frinchas e laminava a carne até aos ossos.
Confundia-se com elas, com as cabras, e dos farrapos do seu corpo elevava-se o cheiro do rebanho, como se a pobre mulher tivesse regredido na sua condição animal...
"Lá vai a Maria das cabras!", dizia-se ao seu passar, estranhando o insólito da pastora e do rebanho perdidos no barulho das ruas da cidade. Nesse trânsito miserável, passava ao largo.
Morto o homem, outro pastor das ruas, parece ter ficado mais cercada pela fome, e em breve deixou de ser vista com o rebanho. Andava por aí, com os mesmos farrapos pretos, e o mesmo bedum, cada vez mais escanzelada, à procura de sol e de pão. A fome era a sua companhia, o seu drama itinerante, a sua mortificação de sempre. Andava sozinha, não era daquelas pessoas que se chegasse perto das chamadas instituições de solidariedade social.
Às vezes, via-se o que parecia ser uma mulher com a cabeça e o tronco enfiados nos contentores do lixo, à cata dos restos da comida alheia. "É a Maria das cabras!", e passava-se adiante, que o cliché há muito se tinha tornado típico. Um dia destes, numa passagem de nível sem guarda, perto do Fundão, uma mulher foi ceifada pelo comboio. Ficou desfeita, pedaços espalhados a esmo pelo local, que os bombeiros arrumaram em sacos de plástico. Esquartejada, não foi, apesar de tudo, difícil, identificar a vítima: era a Maria da Cabras. Trazia uns farrapos pretos e aquele cheiro a rebanho com séculos de pobreza.
Uma vida desfeita..., disse alguém.
E passou adiante.
Jornal do Fundão, 05.02.1993
Tudo o que tenho a dizer de Maria da Piedade António Afonso, é que ela não passaria adiante.
E agora, avó, vou ali buscar o teu vestido preto de veludo, o colar de pérolas e a encharpe que te trouxe da India, para dançarmos os dois, como tantas vezes fizemos neste terreiro de amor, treinando para os brilharetes que fazíamos nas festas do Nosso Senhor da Misericórdia.
E depois, às tantas da noite, comer a tua sopa de feijão (que bem ensinaste à minha mãe).
As rosas, essas ficam cá, para vir regar o meu grande amor por ti, avó, companheira, cúmplice, professora de coisas silenciosas e importantes. Sempre que regar estas rosas robustas e teimosas, lembrar-m-ei de ti, camarada de chacota e grande humor, de rir malandro no teu colo, avó.
O teu sorriso e o teu amor levo, para o resto da viagem.
Faço um rolinho num guardanapo, como tu fazias com as notinhas surripiadas ao avô e embrulho lá também um poema do vizinho da Atalaia:
"Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"
Adeus avó, do teu fraldisqueiro,
Escaldado, Castelo Novo, na mais bela noite do último verão - 2013
Monday, April 16, 2007
Manelito, o texuguinho e o benjamim da família
À dos cunhados contra cunhados
Bolinho e as três papoilas
Maria da Piedade António Afonso - A matriarca
Manuel Vitorino - Dia 11 de Abril 80 brasas
Manuel Vitorino, marido, pai, cunhado, sogro, compadre, avô e bisavô.
80 primaveras de uma vida dura que não lhe roubou o sorriso.
Anos 80 no Arneiro
Não foi uma festa disco sound dos anos 80, mas sim a festa dos 80 anos do Ti Manuel Vitorino, natural dos Escalos, ferroviário reformado, apreciador de uma boa pinga e responsável (juntamente com a Dona Maria Piedade António Afonso) pela existência de um prol que já vai na sua 4ª geração com um texuguinho chamado Manel. Avós e bisneto em festa nessa bela terra do Arneiro, com o Tejo ali ao lado, e as enguias no prato.
Do escaldado para a blogosfera
A família Afonso Vitorino e associados já tem um cantinho na blogosfera.
Fotografias, histórias, entrevistas e muita animação num blogue familiar à beira da Gardunha. ~
Antes havia os Gato Fedorento, agora há o Gato do Escaldado, pelos Afonsinhos do Condado, perdão, Escaldado.
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